Rádio Grilo

09. Kaleu Camargo: Escalada descalço (Barefoot climbing), Iperó Boulder (Iperocks), Dados Escalada Brasil (DEB)

João Agapito Episode 9

O Kaleu é escalador e adepto do barefoot climbing (escalada descalço), uma modalidade incomum que desafia os padrões tradicionais.

Nesta conversa, vamos entender como e por que ele começou a escalar descalço, as principais vantagens (sim, vantagens!) e as adaptações e técnicas específicas que o levaram a encadenar boulders de graduação até V10. Ele também vai contar sobre o projeto Dados Escalada Brasil (DEB), que busca mapear e quantificar vários aspectos da escalada, analisando temas como lesões e inclusão.

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João Agapito (00:00)
Fala galera, sejam muito bem vindos a Rádio Grilo, seu podcast do Mundo Outdoor e no episódio de hoje eu vou bater papo com o Kaléu, ele que é escalador e adepto do Barefoot Climbing, que português claro nada mais é do que escalada de escalço e é isso mesmo que você escutou doideira, ele escalada de escalço, sem sapatilhas, nada, só o pé dele e a rocha

Então nessa conversa a gente vai entender pouco mais sobre porque ele começou a escalar sem sapatilha, quais são as principais vantagens e sim de acordo com ele existem vantagens, as adaptações e as técnicas específicas que levaram ele a encadenar boulders de graduação até V10,

vamos entender também pouco mais

sobre o projeto Dados Escalada Brasil, o DEB, que ele iniciou e busca mapear e quantificar vários aspectos da escalada, analisando temas como lesões e inclusão. Bora lá?

João Agapito (01:26)
se você pudesse fazer uma introdução né sobre quem é o caléu

Kaleu (01:30)
A primeira coisa que eu queria fazer antes de falar isso é te agradecer a oportunidade de estar falando aqui ao lado de tantas máquinas aí porque a galerinha que você está entrevistando é tipo, muito massa, privilégio também poder estar aqui e poder compartilhar com

João Agapito (01:44)
você é uma máquina, se você não fosse uma máquina, não estaria Então sinta-se elogiado também.

Kaleu (01:51)
Obrigado, massa demais, Então, mano, eu sou cara

João Agapito (01:56)
Sim.

Kaleu (01:58)
Eu escalava desde moleque, eu cresci num sítio e tinha muita árvore lá e até mesmo umas pedras assim, mas não chegava a ser boulder, porque era pedra que a gente normal sobe, que tem degrauzinho e muita árvore, eu lembro de eu estar cima da árvore e eu gostar da sensação do braço quase travar, tá ligado, esse negócio do braço ficar queimando, então eu tentava ficar mais tempo posições meio zela cima da árvore, tipo, às vezes alongando, às vezes subindo, pulando o muro e...

E enfim, tive essa vibe muito forte mim de escalar e subir nas coisas assim. E demorou muitos anos na minha vida pra eu, enfim, chegar numa rocha e entender o que que era esse jogo que faz de, sai com mão nessa garra aqui e vira ali. Essa subjetividade que pra gente é tão certa, tão forte, que se você for ver pra outra pessoa é uma loucura, né? Você tentar achar jeito mais difícil de subir uma pedra.

E eu comecei pouco tarde, eu acho, mas não tarde demais. Ainda pude aproveitar pouco do meu quando eu comecei a escalar, que foi a primeira vez que eu fui Iperó, primeiro eu fui numa academia e curti a vibe, a movimentação muito pobre, mas como eu já era leve e já vinha de outros esportes de performance, de corrida, de meio Ironman...

de fazer stuff provas de ultra triathlon e tal, essas foram as referências que eu cheguei na escalada. E foi muito massa poder estar lá escalando com os caras e entender aquilo, eu fiquei fanático desde o primeiro dia que eu fui para

João Agapito (03:34)
então você começou na escalada há quantos anos atrás?

Kaleu (03:38)
Esse ano vai fazer 6 anos. É bem recente, é. Por isso que às vezes eu julgo ser pouco tarde, porque não tem como você não pensar assim, porra, imagina se eu tivesse começado com 10 anos de idade, Mas enfim, esse pensamento não traz nada de bom, O negócio é o que a gente jogar com que tem agora, tá ligado? bom que apareceu hiperóxido na minha vida, que eu acho que a base de tudo é hiperóxido, e as pessoas que frequentam hiperóxido e desenvolveram hiperóxido, então...

Isso é a minha escalada, é reflexo de peróxia junto com a minha personalidade, E eu comecei com 27 anos, Vai fazer 6 eu evolui muito rápido, assim, esse primeiro Toda vez que eu ia pra lá eu ficava pensando Puts, imagina quando eu voltar aqui com 20 vezes de escalada? Imagina quando eu voltar aqui com 50 vezes de escalada? Tipo, o que eu vou estar mandando? O repertório de movimento que eu vou ter aprendido e tal?

E eu sempre ficava nesse até que passou ano mais ou dizer de abril de 2019 quando eu fui a primeira para abril de 2020, que foi o lockdown, tipo março de 2020. E aí nessa situação do lockdown, estava a galera lá de Perox, que é galera que é, como que eu posso o headquarter de Perox, sim, porque quando deu lockdown não podia ir lá, então...

João Agapito (04:48)
A sede?

Kaleu (04:49)
a sede, galera fato viabilizou a compra do terreno, desenvolveu o Cativaz e tal, que os caras, o Vitam, o Massa, o Rasta, o Naná, a Laís, a Lye, tava todo mundo lá nessa época que era muito massa. E aí o que aconteceu foi que eles tiveram uma nova permissão de fazendeiro lá de poder escalar nos setores daquele lugar, porque a gente não podia ainda. Então, começaram a se desenvolver alguns setores novos.

E aí eu mandei uma mensagem pros caras no Instagram e aí eu falei cara, eu sou local, tô aqui do lado, menos de uma hora daí tô no lockdown, tô na neurose aqui, deixa eu ir aí. Daí os caras demoraram dois dias pra responder, eu falei, me queimei com os caras, puta cara folgado, daí os caras, não, vem aí mano, só que se você vir é pra você vazar, porque era lockdown, então tipo se eu fosse lá eu tinha que ficar lá. E aí, velho, foi a melhor coisa pra mim, enquanto tava o mundo inteiro perdido...

parado, travado, galera desesperada, eu fui viver o sonho de uma forma que nem eu imaginava o quão bom aquilo seria pra mim, tá ligado? E isso foi com ano mais ou menos escalada. E aí nesse período de lá eu escalava X, tinha dificuldade pra escalar X, e aí depois de ano morando lá Perox, às vezes na barraca, às vezes na casinha do Moisés ali na frente...

Mas a maior parte do tempo na barraca e vinha gente, daí teve uma hora que liberou pra galera voltar a colar e eles iam lá testar os boulder que a gente tinha viabilizado. foi tipo assim cara, aprendi muita coisa com os minha formação como escalador de boulder hoje é 99 % baseado peró. Tem pouquinho de ubatuba também, alguma coisinha Minas, alguma coisinha lá Santa Catarina com os caras lá e

João Agapito (06:32)
Porra,

E assim, aí só então, talvez dando passo para trás aqui para entender assim, quando você começou na escalada, imagino que você tenha começado com sapatilha, né?

Kaleu (06:44)
Sim, eu comecei com sapatilha e foi o Capitão Jack, grande Álvaro, que me vendeu minha primeira sapatilha, uma Evolvi roxinha. Aí paguei ele parceladão, tá ligado? Porque a galera da Escalada normalmente tem grana e eu já vim de cenário pouco diferente e isso fica notável ali na hora, tá ligado? E aí pá, comprei a sapatinha do Álvaro, mas...

João Agapito (07:04)
A sapatilha

é cara, cara? A sapatilha hoje no Brasil é salário mínimo.

Kaleu (07:09)
é salário mínimo, velho. E vai que a galera acaba usando uma, duas no ano, aí fora a ressola, fora a magnédia, fora a bolsa do Art Face, ventilador, São coisas assim que pra mim estão no futuro, tá ligado?

João Agapito (07:22)
curioso foi full mode para Iperó, então ficou dois anos morando Por que você foi para lá só viver da escalada? Você estava trabalhando remotes, estava estudando?

Kaleu (07:37)
Então, na época eu era professor de inglês até maio de 2020 quando foi o lockdown e aí teve sábado lá que já era, vai ser lockdown e fui demitido, mas na época era tipo leve afastamento cara falar pra você como é que eu fiz pra virar nesse tempo hiperox eu comprei coisa da China, de fazer massagem no dedo, tá ligado?

Cara, eu comprei isso daí por preço x na China e mais pra frente eu vendia por alguns escaladores, tanto por Instagram, vendia por Mercado Livre, comprei uns esparadrapos e vendi. Eu tinha dinheirinho guardado, como eu tava falando que eu tava dando ela de inglês, e aí hora que vi que parou mesmo daí, teve acerto com a escola. Cara, lá Peró também, como tava essa galera lá no lockdown, e tava aquela sensação de medo ainda, tá ligado?

abril, maio de 2020, ninguém sabia o que ia acontecer, gente assistia os vídeos na internet tipo, os caras, vai morrer dois milhões de pessoas no Brasil, tava aquela loucura. E aí eu fui me mantendo, cara, eu nem senti dizer exatamente como que eu passei cada mês, mas a gente cozinhava meio que tudo junto, aí tinha macarrão, outro tinha uma lentilha, aí o brother da frente plantava a abobrinha, daí juntava com o Atum e fazia lá, tá ligado? E tipo assim, é...

É ruteira, mas vale a pena frisar de que aonde eu estava não estava na barraca sem banheiro, sem fogão, sem nada. Lá Perox tem uma estrutura para os escaladores, que tem banheiro, tem chuveiro, tem geladeira, tem fogão, tem lugarzinho para a galera uma resenha, assim, botar uma rede. É lugar que não é 100 % rute, mas assim, dormir na barraca, às vezes é...

carrapato, daí tem toda interação com a vida do lugar, né, com cobra, aí você se lesiona, aí o cachorro pega a doença do carrapato, aí o boi foge, pula cerca, então tipo, o dia inteiro não tá acontecendo nada, mas tá acontecendo tudo, tá ligado? E tipo, isso que foi o, tipo, explodiu minha mente, assim, que eu não... Porque o mundo inteiro tava choque e eu tava vivendo uma época de descoberta, porque tipo, você fica de bermuda lá, descalço, escalando, a vibe.

João Agapito (09:42)
Cara, imagina que deve ter sido uma vivência incrível, Que doido. Mas aí eu queria entender porque, bom, você disse que começou na escalada e aí você comprou sua sapatilha, como, imagino que, né? 99,9999 % das pessoas no mundo começou a escalar, mas que momento que o escalar de escalço barefoot climbing aconteceu para você?

Kaleu (09:47)
Foi.

O escalar de calço é uma junção de várias conveniências, assim, vamos dizer. Várias fatores que foram convenientes ali na Primeiro, foi esse negócio do preço da sapatilha, porque, cara, eu destruí a sapatilha alguns meses, assim, eu não tava preparado psicologicamente pra comprar outra. E o Álvaro vendeu barato a sapatilha, eu achei que era meio que aquilo mesmo e

E aí foi passando tempo, acho que Hiperóxico ficou uns oito meses de lockdown, assim, a gente lá, ou pouco menos até, não aí começou aí a galera lá, né? Devagarzinho começou a colar, porque flexibilizou as leis e tal, aí passou tempo e tal. E aí o que aconteceu é que eu já conhecia as trilhas, já conhecia as pedras, e aí eu meio que fazia tour com a galera, tipo, vem os brothers de Minas aí que nunca vieram a Hiperóxico.

Aí beleza, vamos aí dar rolê. A gente dava rolê sem creche, sem mochila, meio rapidão todos os blocos, mostrava o que os caras queriam. você quer escalatar o grau? tem esse aqui, aquele dali. eu quero escalar boulder de pote, tem aquele dali. Meio que virei guia do lugar, de certa forma, porque a função da gente ali era brigueiro, né? E nessa eu entrava nos boulders também, tá ligado? Tipo assim, bloco aqui tem V2. Tipo, eu não levava a mochila com a sapatilha, com o magnésio, com tudo pro bloco. Eu entrava lá...

sem creche mesmo de escalço, porque eu já tinha feito sei lá, 200 vezes aquele move, e é move tipo muito abaixo do que o escalo, eu comecei a fazer escalço, tá ligado? E aí foi surgindo, só que no começo era V1, V2, V3, escalço, às vezes fazia lance de boulder mais duro e tal. E tem também outro fator que eu tenho uma joanete, véi. Tipo, no meu pé direito é...

é bem grande o osso da Joannete, tá ligado? E a sapatilha ela é pra quem tem pé mais fino, mais pé... Tipo, o meu pé ele é largo, tipo largo assim, da Joannete até o canto. Mas não é pé largo, tá ligado? Ele é pé fino até, mas a Joannete ela tem uma proeminência assim que... Cara, você vê meu entrando no meu pé numa sapatilha, dá até dó, véi. Juro pra você.

João Agapito (12:07)
pé entre aspas como entrando nessa partida já dá dó,

Kaleu (12:09)
Já dá

dó, velho. É, eu comprei com uma jorneta gigante, então fodeu, né? E aí, tipo, como eu disse, foi uma junção de várias paradas que aconteceu pra mim, tá ligado? E aí, as coisas mais difíceis, eu escalava de sapatilha, porque eu fui nessa, eu comprei mais sapatilha, eu tive umas, sei lá, umas quatro, cinco sapatilhas nesse primeiro momento. Acho que era umas quatro, velho. E aí, eu mandava as coisas que eu mandava

o meu grau mais alto que eu escalava ali naquela hora era de sapatilha, então até esse momento assim, todo o tempo que eu morei Peró as coisas duras que eu escalei naquele tempo ali foi tudo de aí dia eu tinha mandado boulder lá Peró 1x7 que é o invasão invasão a eu tinha mandado duas vezes já de sapatilha e aí dia tinha uma galera lá e eu falei quer saber mano, eu vou entrar pela primeira vez na minha vida num boulder que eu considerava duro e ainda considero duro

Eu vou entrar sem sapatilha pra ver. Aí cara, eu mandei o boulder igualzinho, velho. Igualzinho. Tipo assim, não fez diferença nenhuma pra mim. Nenhuma. Zero, Nem de gripe, nem de pisar regletinho, nada. Foi a mesma coisa, assim. E aí que acendeu essa luz na minha cabeça, tá ligado? Por quê? Isso chamou muita atenção da galera que tava junto. E como todo ser humano, se faz uma massagem no ego e você fala assim, pô, tem alguma coisa aqui, velho. Pelo menos alguma coisa nessa vida eu sou bom, né?

E aí você começa tipo, porque ninguém faz, ninguém faz. E aí eu fui tendo essa paciência de tentar entrar nas paradas que eu já tinha entrado de sapatilha. Entrava de sapatilha de novo pra ficar na cabeça, a memória e tal. E aí eu entrava descalço. E aí algumas coisas ficavam mais difíceis, algumas coisas eram virtualmente impossíveis, algumas coisas ficavam mais fáceis. E algumas coisas eu conseguia fazer de jeito diferente.

Porque a física de escalada escalço, ela é pouco diferente da física de escalada de sapatilha. Tem alguns movimentos, a posição que Que o seu ponto gravitacional, assim, na cintura fica relação à pedra, por você estar usando o calcanhar, ou pra você estar regletando de dedão. E, às vezes, uma garra aqui de sapatilha não entra o pé, às vezes eu consigo usar reglete de dedão muito bom, que me possibilita usar outras mãos pra fazer outra transição. E eu tenho a cintura muito leve, tá ligado? Então, eu consigo manter ela perto da

que nem eu to falando, são várias coisas que influenciam Tipo, eu quando era criança só andava descalça, subia árvore descalça Então eu tenho o pé com os tendãos desenvolvidos abertos, assim, tá ligado? Mas que tem a é Ele não é muito rústico, assim, porque é cheio de calo, essas paradas não tem nada a ver Galera pergunta, mas é pé normal, assim, igual a minha mão, tá ligado?

João Agapito (14:38)
porque... Sinceramente, eu ainda acho isso, cara. Estarrecedor, assim, do tipo... Cara, que loucura, velho. Que loucura. bom, se você olha... Inclusive, Estava dando uma pesquisada sobre Barefoot Climbing, e o eu tinha na cabeça era você e o Charles, o francês maluco lá. E eu falei, beleza, deixa eu ver

Use case. Cara, meio que não consegui achar. Tipo, caras que mandam graus relativamente altos, né, como vocês dois. E você imagina, cara, na cena do mundo, né, a tá falando assim, escalada no mundo. É... Assim, de novo, né, pode ser que existam, mas que eu consegui encontrar assim, mainstream, não consegui. Então, cara, isso só mostra o quão, loucura é isso, velho.

E eu sou muito curioso vários aspectos, mas vamos começar pelo aspecto dificuldade. Para você, quais são os principais desafios de escalar descalço?

Kaleu (15:38)
A grande mudança tá nos pés, tá ligado? Eu acho que a grande mudança tá nos pés porque as mãos você continua exatamente igual e aí se os pés mudam, o quadril Como é que eu posso dizer? Descalço é muito difícil de você usar calcanhar com a mesma pressão que você usaria de sapatilha. Então se você põe o calcanhar descalço...

Você consegue dar uma alavancadinha ali, de boa, você consegue usar. Só que se você precisar daquela catracada que você dá com a sapatilha, que é tipo, move bem específico, a pele do seu pé não aguenta. E se aguentar e você der essa catracada e, por exemplo, você der uma escorregada de reglete e esse pé tipo, raspar na pedra, você vai arrancar puto de pedaço do seu pé. E depois é mó trampo, velho, tipo, eu já arranquei vários pedaços, depois é mó trampo porque você tem que ficar de tênis se você for...

na cidade e tal, aí o bagulho não cicatriza nunca, e aí você... Enfim, acho que o calcanhar é a principal. E tem mais uma coisa também relacionada ao calcanhar. Tem alguns boulders que quando você coloca o seu calcanhar, a sua bunda, né, o seu centro gravitacional, ele cola na pedra, você encosta sua bunda na pedra com o calcanhar, com o joelho apontando pra fora. Se você tá escalando descalço, como você tá regletando com o dedão...

o seu quadril vai ficar pouco mais pra trás, porque seu joelho vai estar apontando pra cima, não vai estar apontando pra fora. Então você tem essa sua perna meio que atrapalhando, assim, porque tem situações que o centro gravitacional que a sua bunda tiver, centímetro mais pra trás, a força que você tem que fazer na mão já cresce exponencialmente de jeito que você não faz aquele move, tá ligado?

E são essas diferenças do calcanhar que eu vejo que dá pra usar, mas é daquele jeito. Tem que ser meio de leve e tomar cuidado pra não escorregar, que senão vai arrancar pedaço. E quando você for fazer lance que você for regletar com o dedão do pé, você vai ficar pouco a bunda pouco mais pra trás. E TOW? Tipo, TOW é

João Agapito (17:29)
Cara, o tou é uma das primeiras coisas que vem na minha mente. Cara, que imagina... Porra, de verdade, cara. Quando eu vou fazer tou na academia, de sapatilha na academia, eu já fico meio cabreiro Aí, cara, só deu pra pensar na ideia de alguém fazer tou ou rio, calcanhar descalço, na pedra, cara. Pra mim, tipo assim, velho, não possível. Tem que ser cara muito brabo,

Kaleu (17:53)
já rolou, já rolou no boulder pelo sertão lá Obatuba. Tem lance lá que você faz uma bicicletinha assim com o pé na garra para você dar tapa para você chegar na virada assim. E aí eu fiquei várias idas para Obatuba tentando achar outro jeito, regletar, regleta aqui, regleta ali, vira para cá e vira para lá. E essa é a parte que eu mais gosto de ficar tentando achar jeito.

Aí dia eu fui lá e falei mano, eu vou mandar esse boulder nem que arranque pedaço do meu pé, porque virou pessoal assim a parada. Todo escalador tem isso, tá ligado? Eu falei, vou mandar aqui,

João Agapito (18:25)
não, desculpa, tenho que fazer uma correção aqui. Nem todo escalador pensa do tipo, vou fazer aqui, mas que arranque o pedaço do pé, porque 99.999 % dos escaladores usam sapatilha, né? Então assim, não vai arrancar pedaço do pé.

Kaleu (18:36)
Mas vocês fazem isso com a mão,

falando assim, a mão já abriu, cara bota super bonder lá, bota os paradrapa e taca de novo na mesma garra até abrir de novo. Então tipo assim, eu pensei na mesma linha só que usando o pé, tá ligado? Eu falei, mano, eu vou tentar fazer esse toe aqui pra ver. E cara, por incrível que pareça, eu consegui fazer toe e não usei nem o dedão, nem usei nem o dedão do pé, usei os outros dedos menores assim.

Consegui fazer a bicicletinha e fiz o lance, não escorregou, deu tudo certo, zero de Praticamente milagre. Isso foi dos divisores de água, porque não é o bode mais duro que eu mandei descalço naquela ocasião, mas foi a coisa mais insana que eu achava que não ia rolar. Até ir lá uma tuba, daí vai até o pontão, escala, daí precisa chegar e não mandar e voltar embora, quando que vai voltar pra lá, tá ligado?

é longe, é meio caro e tal, e aí você fica nessa. Aí eu falei, não, vou mandar. E isso dividiu pra mim, eu falei assim, vai ter coisa impossível, mas vai ter coisa que gente vai ter que desenrolar, tá ligado? E desde então, esse é o meu maior tesão de escalada de calço. É olhar a parada e falar assim, como é que eu vou fazer isso aqui, Porque a minha escalada muda, o centro gravitacional muda, as possibilidades mudam, o mão muda, dá pra entrar coisa diferente.

E sei lá, acaba o grau ficando muito subjetivo, porque de sapatilha às vezes tem uns lances mais duros que descalça ficar fácil, tá ligado? E tem uns lances mais fáceis que descalça ficar duro pra caralho, sei lá. Uma loucura, véi.

João Agapito (20:01)
que isso? Não, assim, cara, agora você tá tipo, não, tá rolando uma confusão mental, assim, tudo que eu tinha, tudo que eu, o pouco que eu entendi de escalada agora está sendo tudo desconstruído, então calma, vamos lá, primeira pergunta, de que forma você acha

Kaleu (20:06)
É.

João Agapito (20:17)
que escalar de escalço é melhor do que escalar com sapatilha.

Kaleu (20:19)
Cara, vou te falar boulder que é duro, que é mais fácil descalço do que de sapatilha, velho. Lá Ubatuba também, no mesmo bloco do Pelosertão, tem boulder que eu não sei se é o WC, que sai bem embaixo da virada do Pelosertão, assim. Porque você sai numa zagarrinha ruim, e aí lá embaixo é pé esquerdo que você sai com ele meio dropado pra dentro, assim. Quando você enfia seu pé com a sapatilha lá, é bico muito grosso, muito grande, tá ligado? E ele não entra no lugar onde tem que entrar.

Você consegue usar ele fazendo uma pressão pra baixo. E aí você tem que usar esse body tension fazendo a pressão pra baixo pra fazer o próximo move. Eu consigo enfiar meu dedão esquerdo inteiro nesse buraco e regleto lá e faço esse move estático, velho. Tá ligado? E aí pro resto do boulder não faz diferença nenhuma. Tipo, porque você acaba que não usa muito o pé. Você domina agarrão, né? Porque esse boulder é curto e grosso. Você faz esse primeiro move e E a galera faz perder no pé. E eu como eu tô descalço, eu consigo enfiar meu dedo lá dentro do buraco.

E aí eu travo de novo, aí eu domino essa garra e viro e não faz diferença, E cara, já teve várias coisas que eu digo, vários boulders que é mais fácil descalçar, velho. Principalmente depois que você pega pouco a prática de escalar, tá ligado? Porque é uma coisa natural, querendo ou não, O seu dedão vai querer entrar nos buraquinhos, tá ligado? Você está escalando lá, o seu dedão vai ficar procurando igual a mão, E aí você desenvolve o tato, e aí você desenvolve várias paradas que...

de sapatilha fica estranho depois, entendeu? Então hoje eu não escalo nem metade do que o escalo de sapatilha.

João Agapito (21:46)
Que isso cara, é muito impressionante cara, seu testemunho assim, e eu imagino que pra você, é porque assim, bom, quando você vai escalar com, tipo, escalar dois... Tipo, que usam sapatilha, não quero usar a palavra normal assim, mas enfim, o padrão, obviamente depende de estatura, de força, etc, mas...

meio que tem uns betas que você de outras pessoas. Mas você, sendo barefoot climber, pra você você tem que reconstruir, desconstruir os betas, eu imagino.

Kaleu (22:21)
Exato. Tenho grande amigo meu, Marcel Nakamura, que é o brother da escalada. Foi a primeira pessoa que começou a dar beta, o primeiro cara mesmo que escalava bem, isso antes de eu morar peróxia, tá ligado?

e aí às vezes eu falo, poxa, Marcel, me dá beta aí, mano, tá ligado? quando você tá me enjuriado assim, não tá conseguindo ele fala, poxa, eu não consigo pensar no jeito que você escala, velho eu tenho que botar pra maquinar aqui porque é uma coisa diferente, é outra movimentação, é outra física você pode usar outras coisas às vezes até aderência do pé, cara, tá ligado? então tipo...

Se você está pisando com a sapatilha, vamos dizer que a superfície de contato com a rocha, no biquinho do pé, seja, sei lá, 3 cm², assim. E se eu boto o pesão lá cima, sim, cara, é a superfície inteira do meu pé. Por mais que a superfície do meu pé tenha muito menos aderência que a borracha da sapatilha, por estar contato com uma superfície maior, pode ter o mesmo gripe ou até mais, dependendo da situação, Então são várias coisas que você vai vendo e tipo assim...

Eu sinto que hoje eu não explorei nem 10 % da minha capacidade e da escalada de barefoot, velho. Tem muito pra acontecer, tem muito pra acontecer. Dá pra ficar muito forte, dá pra ir nos boulders e tipo assim, dia quem sabe escalar com o Charlie barefoot lá Fountain Blue, tá ligado? Falar pra ele fazer tour lá comigo. Eu já falo com ele no Instagram, mas ele não me responde, tipo... Mas ele já curtiu vídeo meu uma vez mandando boulder. É tipo assim...

Eu sempre chamo ele e falo cara deve ser outro mundo né pro cara vindo aqui escalar descalço seria uma parceria muito louca assim. E isso mano é gancho que é uma coisa que você falou ali que eu gostaria de voltar pouco atrás e gostaria de falar. O cenário de escalar da Barefoot ele ele ele não é como que eu posso dizer não é raro velho escalador que é muito forte descalço não é raro velho tipo isso é uma coisa.

que é muito comum e é tão surpreendente pra mim que as pessoas não fazem, tá ligado? às vezes o cara é puta de cara forte, tem pesão muito mais cascudo que o meu, dedãozão, e aí o cara vai e bota a sapatilha pra escalar uma coisa a metade do grau dele, que ele poderia estar facilmente fazendo ou ela poderia estar facilmente fazendo descalça, e a galera simplesmente não vai, acho que tem medo de machucar o pé, ou medo de não ser convencional, ou por exemplo, que nem o Hanada.

O Hanada pra mim é o número 1 de barefoot do Brasil e possivelmente do mundo assim, tá ligado? Porque ele é muito foda, velho. Você vê o Hanada escalando descalço, velho. Tipo assim, eu pareço uma criança perto dele, velho.

E cara, esses caras eles são tipo assim, eles só não regaçam no barefoot porque eles não querem, porque eles têm que competir, porque eles competem via. E às vezes o cara... Você vai escalar descalço no pico, você é louco? Às vezes você se machuca, você tem salário entrando, tá ligado? Pra competição, com passagem marcada. E eu sou o cara que vestiu essa camisa não só de escalar.

eu vistei essa camisa no estilo de vida também, tá ligado? Porque além de todas essas conveniências que eu fui citando que a escalada de escalso pode trazer, tem muito a ver com a minha personalidade de tipo assim, eu nunca curti usar chinelo, tá ligado? Nunca curti muitas regras, sabe?

Cara, eu acho que o barefoot é uma mina de ouro esperando pra ser descoberta, principalmente locais que nem hiperóxia, que a pedra é soft, com muita garra, assim, tipo, eu recomendo pra todo mundo, vão lá escalar descalço, só cuidado não se machucar, velho, porque machuca.

João Agapito (25:43)
eu entendo todos os seus pontos. Mas assim, eu ainda não consigo me sentir convencido a tentar escalar descalço assim. parece muita dureza assim. Então, aí eu queria te

Tem algum tipo de rocha que você prefere ou que você evita?

Kaleu (25:59)
Cara, eu diria que evitar não. Eu sou muito curioso, inclusive, para todos os tipos de rocha, porque isso muda o estilo de escalada, Então, você vai ter, às vezes, umas agarras menores, mais abrasivas, e bem perto uma da outra, mas o búltero é super duro. E aí você vai ter lugar que as agarras são, de certa forma, pouco melhores, mas os movimentos são pouco mais dinâmicos, ou às vezes até você tem que dar uma coordenada para poder encaixar.

ou você tem que pegar num copinho de jeito que só quem pega copinho tipo, hiperó é muito rico essa quantidade de agarra tem seixe, tem reglete, tem abaulado, tem invertida, tem tudo que é jeito e aí quando você vai por exemplo num lugar como o Batuba né que eu tô falando das minhas duas referências é totalmente diferente então assim eu tava escalando hiperó grau e aí fui pro Batuba pra minha primeira vez depois de começar a descalar assim sabe, já tendo uma certa experiência

Cara, escalava a metade, ou menos da metade lá Obatuba Tanto mó boca aberta, cheguei lá, sentei embaixo de V10 lá a primeira vez, e sentei embaixo de V10 lá Obatuba Eu não consegui nem sair, tá ligado? Porque tipo, era diferente, mais abrasivo, as agarras tão perto, mas assim... É duro, mano, é bem duro pra quem tá acostumado num arenito com essa dinâmica de peró E pra granitão com essa dinâmica de Obatuba, tá ligado?

E eu só fico cada vez mais curioso e mais feliz de saber a quantidade de rochas e de estilo que tem por aí, cara. E também quero escalar via. E se tiver trad que der pra ir descalço, quero ir descalço. Eu vejo que evitar tipo de rocha não chegaria assim, mas...

eu tenho pouco mais de afinidade com essa movimentação de peró porque lá que eu me criei,

João Agapito (27:37)
Não, é muito brabo, né cara? Você já mandou o quê? seu grau mais alto foi V10?

Kaleu (27:41)
Beleza.

João Agapito (27:42)
Cara, você pega o universo de escaladores no Brasil, né? Quantos mandam V10? Já não são muitos, agora você manda V10 de Pô, não entra na minha mente, cara, é muita loucura isso, velho.

Kaleu (27:50)
Meh.

Eu acho que é uma coisa mais simples do que parece na real. Esses caras que mandam V10 de sapatilha, se ele entrar umas duas, três vezes descalço, pegar o gosto mesmo, dá pra mandar. Mas daí, não por que não mandam, não sei por que não fazem. Tenho vários amigos máquina aí que as vezes cara tira a sapatilha parece que perdeu o poder, tá ligado? Ainda não tem esse negócio do tato de ter calma na rocha, de botar o pé, de fazer os lances.

Mas eu acho que, que nem eu disse, é uma mina de ouro esperando pra galera escalar, véi.

João Agapito (28:25)
Então, você estava falando sobre desenvolver o tato do pé. Tem algum trabalho especial que você faz com o seu pé?

Kaleu (28:31)
Não, cara.

Eu gosto muito escalar. Eu não sou uma pessoa que tem dificuldade até pra treinar, tá ligado? Tipo, academia, finger, essas paradas eu nunca fiz de botar rotino de treino, vou puxar tantas barras e tal. Como eu disse pra você, eu já vim de outros esportes, então eu tenho essa parada de curto muito correr, curto muito andar de bike, eu curto nadar, eu curto fazer trilha, eu curto jogar autinha na praia, tá ligado? Eu não sou aquele escalador que fica só na escalada e tal.

Até porque eu acho que isso é uma forma de se tornar a escalada sustentável na minha vida, tá ligado?

Esse ano, na verdade o ano passado, 2024,

Houve várias movimentações na minha vida, assim. Foi ano de mudança, foi ano de algumas dificuldades e tal, coisas que eu vi ressignificando pra mim, pra eu poder me ajustar e conseguir chegar pelo menos no 20 % desse potencial que eu tenho, que a escalada de Skalsten, tá ligado? Porque tem muita coisa pra ser explorada, muito lugar, muito estilo. Eu quero ir pra Minas, escalar tudo, cara. Eu quero ir pra Cocal, eu quero ir pra H2, eu quero escalar aqueles boulder duro lá do Rio de Janeiro,

e para isso precisou mudar muita coisa na minha vida porque tem toda essa questão socioeconômica do escalador porque assim é esporte que gasta grana então principalmente aqui São Paulo então assim se eu não tivesse mudado a minha vida e ido para o setor e aí não só esse ano que eu fiquei lá quem é de peró está ligado eu tô sempre lá então eu dou meus pulos chego lá eu fico a galera e

Por mais que a gente tenha uma posição socioeconômica diferente, assim, dá pra contar no dedo, tá ligado? Os caras que vêm desse mesmo lugar, desse mesmo corre que eu tô te falando. A galera que tem a grana, que tá lá, que cola lá, que é tipo, desde o padrão, assim, do meio, até os caras que têm grana mesmo, essas pessoas fazem a escalada pra mim ser possível, Porque elas me ajudam, me fortalecem num nível...

que eu não estaria, não seria o que eu sou. Por mim mesmo, eu não conseguiria fazer as coisas que eu fiz na escalada. Se não tivesse esse brother que deixou eu ir pra Hiperó nesse tempo, se não tivesse a galera Hiperó lá dividindo comida, se não tivesse o brother que vem de outro país e paga uma trip pra mim, tá ligado? Pra eu ir pra Ubatuba pra eu mandar o boda que eu tô querendo. Então assim, não tem uma divisão de time entre os ricos pobres na escalada, tipo, de fato é ambiente onde a galera tá gastando dinheiro porque eu tô vendo, gasolina, tem seguro do carro, tem pedágio.

João Agapito (30:35)
e

Kaleu (30:53)
Tem os Red Bull, E eu tive que me enquadrar do jeito que eu sou pra poder tá... Ali com essa galera fazendo isso, então pra mim é o que deu, então... Você entende como se mistura com a minha personalidade, com o meu estilo de vida, é... Com tudo isso, e é a forma que eu achei pra fazer acontecer, então era isso ou ficar sentado no sofá aqui na minha casa, tá ligado?

João Agapito (31:12)
Porra, mano, que irado, assim, porque é bom, né? Como você disse, cara, você tá fazendo acontecer,

E assim, eu não tenho dúvida, cara. Se a galera está te apoiando para, além de você ser cara, muito da hora, é que você é máquina, Você é muito máquina, velho.

Kaleu (31:28)
são seus

olhos, cara, são seus olhos.

João Agapito (31:31)
E aqui,

outra coisa que eu queria te perguntar, tem boulder que o Charles, aquele francês, o Barefoot abriu V17, que foi o grau sugerido, e aí

Eu queria que você comentasse pouco mais sobre essa questão da graduação, enfim, esse V17 para ele, você acha que V17 para escalador que escala de sapatilha?

Kaleu (31:56)
Cara, tudo que for falar sobre grau é uma subjetividade imensa, a gente não tem matemático para dizer, O que teria que fazer, que acho que poderia chegar mais perto, que tipo, o que a galera faz no grau que todo mundo escala sapatilha e o grau de todos os picos é consenso, tá E para você poder fazer consenso sobre esse tipo de boulder que foi escalado descalço, num grau desse...

você tem que ser escalador que domina escalar de sapatilha e escalar de calço no mesmo nível, porque pro Charles enfiar o dedo ali é uma coisa, agora tipo o Daniel Woods, sei lá, Então é muito difícil de graduar, normalmente agora a ser...

Aí você chutou a bola pro espaço, Como é que gente vai graduar o boulder V17 do Charles, tá ligado? muitas vezes eu acabo zoando com isso daí. Tipo, às vezes o boulder é tal grau. Aí eu mando, aí depois de tempo, por algum motivo, alguém decota, sei lá, o boulder X lá, V9. Aí não, virou V8, mas não, eu vou deixar V9, velho, porque eu mandei a V9.

Descalço é V9. E é isso, mano. mesmo tempo que o grau, ele é uma referência pra você no seu desempenho, na sua performance ali, ele é tão subjetivo que, pô, nem vale a pena ficar muito, é isso, é aquilo, pouco mais, pouco menos. Eu falo o que os caras que escalaram falaram.

é... bagulho aí então se o Charlie falou que é V17 mano

O EV-17 é o EV-16, tá ligado? E aí, então, o que é vai falar? que escala isso aí? Porque pra se falar do grau, você tem que mandar, né

João Agapito (33:24)
mandar descalço, Vamos ter que fazer uma vaquinha aí pra levar você lá pra Fontainebleau,

Kaleu (33:26)
É então...

Fazer uma vaquia, boludo.

João Agapito (33:31)
Então, o outra coisa que eu queria te perguntar, cara, que você tava falando, enfim, da forma como você tem que desenvolver diferentes habilidades e sentidos e tato com o pé, mas você acha que de alguma forma o fato de escalar não melhorou, mas ampliou o contato com a escalada? Porque a escalada outdoors já tem processo intenso de conexão com a natureza, etc.

Mas você acha que fato de você escalar descalço evidenciou isso ainda mais?

Kaleu (34:02)
Com certeza, cara, com certeza. O tato é sentido que a gente corta pela metade quando está escalando de sapatilha, Porque daí você só fica com as mãos, né? E aí você encostar o pé na pedra é outra sensação e tipo, quem cola hiperóxido e já me viu lá, pode sempre reparar que eu estou sentado no chão meio que deitado, ou eu estou numa posição esquisita cima de uma pedra. Eu estou sempre contato, meio sentado, meio abraçando, encostando a bochecha, assim.

Parece meio que criança, sabe? Vibe de criança, assim. Que é uma coisa que tem muito forte mim, essa parada de estar terra, de estar com o pé sujo de terra mesmo. Tipo assim, galera que tem cachorro chega lá Peró, alguns já vão e já rolam na terra pra se misturar com o ambiente. E eu faço meio que isso também. Tipo, vezes eu tô vários dias de tênis, eu chego lá, tiro tênis, já sujo meu pé, já. eu falo, não, agora tá de boa.

É assim que tem que ser, e com certeza, mano, aumenta muito.

João Agapito (34:57)
é interessante que você falou, Porque eu imagino a espessura de seu pé, cara, você pode andar naqueles... Você já viu aqueles desafios que o pessoal, tipo, quebra umas garrafas de vidro e o cara passa descalço?

Kaleu (35:05)
Sim,

João Agapito (35:07)
Você pode fazer

aquilo tranquilo. Mas enfim, eu como pessoa que tem o pé urbano, quando eu tenho oportunidade de fazer uma trilha na natureza, eu gosto muito de andar descalço. E quando você anda descalço, cara, a experiência é outra. Você de fato se sente mais conectado ali. É uma experiência mais daora.

Kaleu (35:22)
Você se sente aterrado ao chão, Mas, mano, O meu pé não é grosso, não, véi. Meu pé é igual a minha mão. Principalmente agora que eu tô pouco fora da escalada,

E tem uma coisa que eu sempre briso, mano, talvez essa seja a oportunidade de falar, quando eu era criança, inclusive, meu pé era bem mais grosso, bem mais resistente do que é hoje, véi. Eu sempre andei na pedrinha, assim, descalço E qual que é a brisa? Nunca para de doer, véi, quando você anda no Cascale na pedrinha. O que acontece é você se acostumar com aquela dor, Então, tipo assim, o cara, por mais que ele fala, não, eu corro na pedrinha e tal...

Mano, ele tá sentindo a dor, só que às vezes não é a mesma dor, eu tenho pouca dor nas mãos e nos pés, quando assim, exemplo, eu machuco, Ou quando eu entro no espinho, assim, é uma coisa que eu tenho pouquíssima dor, às vezes, tipo, eu dou aquela topada que sai pedaço da unha, sai sangue, tipo, eu sou mó de boa, eu tiro lá a pelinha, dou uma lavadinha, passo por óculos, eu sou bem de boa, só que com o cabelo, velho, tipo assim, às vezes você põe a mão no meu cabelo e dá uma puxadinha a mais, assim...

Eu já sou muito, muito delicado, tenho muita dor, parece que tipo, nossa, vai arrancar minha cabeça fora, tá ligado? dramático mesmo assim com o cabelo, E com pé e com o mão não, tipo, com o unha assim, tá ligado?

João Agapito (36:32)
outra coisa que eu estava pensando, eu imagino que as pessoas que não te conhecem, enfim, estão lá no setor de escalado, aí de repente chega o chinelo Havaiana, bermudinha, sem camiseta, tira o chinelo, manda boulder. Como é que é a reação das pessoas, geralmente?

Kaleu (36:50)
É bem isso, mano. Você descreveu perfeitamente sem nunca ter visto, velho. É bem isso. E tipo assim, isso, cara, você tocou num ponto legal, que é ponto que...

Você pode imaginar que isso pode mexer com o ego do escalador pouco, Porque, vamos dizer, você é novato na escalada, tem pouca experiência e tal, e aí tem uma outra pessoa que escala faz mais de uma década, e tá ali levando mó pau daquele movimento, não tá conseguindo fazer, aí já tá lá, tá com a galera, e que nem eu disse, as pessoas investem, elas treinam o finger e tal, e fazem as paradas, e tomam a creatina, e comem sei do quê.

E aí eu chego lá tipo assim, eu sou bem relaxado relação a essas paradas, tipo, tenho que me esforçar pra me hidratar, tá ligado? Eu chego lá e faço a parada, então isso começou a mexer com o meu ego no momento, de uma forma não tão positiva assim, Tanto que, é... meio que virou negócio assim, entra aí pra gente ver como se fosse performance mesmo, uma parada...

seersense, assim,

E aí eu acabei que comecei a perceber esse negócio da galera me conhecer, que nem você falou, ó, chegou o cara que escala descalço, as vezes você escuta os caras falando, esse cara escala descalço, mano, já mandou V10.

Aí eu fico assim, caralho mano, eu nem sou escalador de V10, velho. Tipo, eu sou escalador de menos que isso, não é porque eu mandei V10 que eu escalo V10, tá ligado? E tipo, isso serve pra todo mundo.

E aí tem essa, eu tive que trabalhar isso dentro de mim, cara, essa atenção que chama, E aí eu comecei a perceber que, porra cara, será que eu tô escalando por mim? Ou será que eu tô escalando por essa galera, E todas as vezes que eu falei assim, não, vou entrar pra galera ver, porque eu já mandei esse boulder várias vezes, vou entrar aqui pra galera ver, e eu pensei, será que eu tô fazendo por mim ou pelos outros?

Aí deu conflito na minha cabeça de o que eu sou, o que eu sou, escalador e tal, e eu fiquei meses... Pô, vários amigos aí estão ligados nessa história, eu fiquei meses confabulando e tentando entender o ego, o superego, a parte instintiva, a motivação, fiquei nessa meses sem escalar, velho, porque toda vez que eu ficava paranoico, será que eu tô fazendo isso por mim, será que tô fazendo isso pelos outros?

Até que eu consegui botar minha cabeça no lugar, percebi que eu gosto disso mesmo, eu sou isso. E do mesmo jeito que fulano veio pra terra pra fazer tal coisa, eu vim pra cá pra fazer isso e eu sei que é isso, velho.

João Agapito (39:06)
Eu acho bacana que esse é cara bem consciente e bem humilde também, isso é muito importante. meio que mergulhou na escalada e você banco de dados para escalada no Brasil, DEP, dados escalada no Brasil, conta para a gente sobre isso aí.

Kaleu (39:27)
Cara, que legal. Que legal de você ter mencionado

Cara, isso faz parte da otimização da minha vida para que eu possa escalar mais. eu faço faculdade de ciência de dados e eu quero trabalhar nessa área porque eu me encontrei, assim como eu me encontrei com a escalada, eu me encontrei com essa parte de gráfico, de estatística e matemática

e poder mesmo ter base, embasamento para poder discutir as coisas, entendeu? Então, eu sempre tive esse problema de, o que você acha, o que eu acho, o que ele acha... Não importa muito agora, a tem que coletar os dados e ver o que os dados vão falar para a gente, aplicar modelos matemáticos e tirar insights disso e a comunidade debater. É a forma mais inteligente ao meu ver esse método científico de ir lá e falar sobre as coisas, entendeu?

E eu percebi que na escalada estava faltando isso. ABE, que hoje é CBE, eles fizeram censo 2023 que é muito massa de dados, tá ligado? Isso foi uma das coisas que me deu gás para fazer também, porque eles fizeram censo no final de 2023, se não me engano, que é dividido duas partes e é muito extenso, tem muita informação sobre a escalada, só que como está crescendo exponencialmente...

Já, já, isso daí vai estar desatualizado, eles vão ter que fazer de novo. E eu quero fazer o quê? Ir para os lados que a ABE não está indo, ou ir mais profundamente onde a ABE já está, entendeu? Então, o escalada Brasil é projeto

que ele tá nascendo agora, vamos dizer com seis meses. E, pô, não tem nada mais legal do que eu poder juntar o meu trabalho, a coisa que eu estudo, a forma como eu penso e misturar com o meu lifestyle de escalada e tudo.

João Agapito (41:09)
Pô, irado! E assim, ô, galera, então conta pra gente quais são os seus principais objetivos com a Deb? Cara, eu achei muito bom, tá? Dados escaladas do Brasil, Deb ficou excelente.

Kaleu (41:17)
É legal, né, Xion?

Ficou simples, O objetivo, tipo, você olha, você já sabe do que se trata e tal. Então, cara, o objetivo principal da Debi é iluminar os caminhos e nos dar dados para poder discutir sobre as coisas da escalada que a gente discute.

A gente está começando agora, mas já surgiram alguns padrões interessantes, já sobre a saúde do escalador.

Essas coisas de lesão, de descanso, de hidratação, de alimentação. Eu quero aprofundar nisso de uma forma bem mais profissional do assunto,

E aí depois eu quero entrar temas delicados, tá ligado? Como essa parte socioeconômica, ela serve pra mostrar pra gente quem que são os escaladores, E aí a gente pode chegar a alguma conclusão, de repente, baseado nesses dados, de como que gente poderia incluir outras pessoas, tá ligado?

E abordar temas também como assédio, Ouvir das minas, o que que tá rolando, quanto que é mesmo, o que que é, que tipo de assédio,

Então, tem uma porrada de coisa, tá ligado? E mais pra frente eu queria também fazer virar uma associação isso daí, Uma mensalidade, tipo assim, coisa de, sei lá, R $2,99 por mês pra ganhar bastante escalador na quantidade e usar essa parte pra manter a Debi, porque dar trampo coletar a data e fazer isso, gerar gráficos, gerar relatórios, essas paradas são horas e horas e horas do tempo, E tem que manter esse custo de operação e tem que também...

mandar dinheiro pra fora. Então, por exemplo, a gente tava lá na Geométrica e na Academia de Escalado Sorocaba, e aí pai e uma mãe catador de latinha, com aqueles carrinhos de reciclagem, pararam na frente duas filhas pequenas. As meninas magrinhas, langa, bração, comprido assim, meu... estilo de escalador, parece que já nasceu pra isso, assim. Aí entraram lá, e aí o Willzão, que é o dono da Geométrica, se sensibilizou na hora e deixou as meninas escalar ali. E, foi assim!

Mano, a menina já mandou uma cruzadinha de pé e inverteu, parecia que ela já sabia escalar, aflegou, velho, pegou no abaulado sem reclamar, velho, porque tipo, pessoa normal que pega abaulado, fala, ai caralho, isso aqui não é agarra... A menina fechou a mão na tetona de abaulado assim, já cruzou por baixo, deu bote na de cima, tipo assim, eu mano, agou o meu olho e fechou a minha garganta de ver essa menina escalar, velho, cheirando latinha de cerveja, tá ligado? Tipo, porque eles estavam catando cerveja e fica com mão fedendo. E tipo assim...

Porra, se eu puder pagar uma mensalidade ali da Geométrica essa mina, tá ligado? Eu não sei o que foi que o Willzão fez com ela, parece que fez alguma coisa lá e tal, mas esse tipo de coisa que eu queria poder ajudar também, tá ligado? Tipo assim, até pelo que já me ajudaram na escalada assim.

João Agapito (44:00)
é muito bacana quando, para além do objetivo profissional que você tem de a Debi, plano de cara, genuíno de, fato, querer fazer por outras pessoas o que, de certa forma, fizeram por você e tornar...

a escalada acessível. eu acho que, você ir para essa pegada de quantificar as coisas, querendo ou não, eu imagino que deve ser muito escasso ainda hoje no Brasil, é uma pegada muito promissora.

Kaleu (44:33)
é pegada é uma pegada massa, véi,

João Agapito (44:36)
Calel, então, aí eu queria te perguntar, cara, você disse das vantagens de escala de escálsit, etc. Você vê uma crescente no número de adeptos no Brasil e no mundo?

Kaleu (44:48)
Cara, no Brasil eu posso dizer que quando eu comecei a os primeiros pegas de escalço e até tinha ou outro brother também que fazia descalço, umas coisas fáceis assim, acaba rolando ali no setor, até pra aquecer e tal.

E eu vejo sim, cara, galera escalando, mano.

Porque tem mais uma coisa também que a gente não falou, tem muitos cara...

que é do lado B da escalada que a gente nem sabe, Eu que me preocupo com os vídeos assim pra postar no Instagram, quero uma imagem assim da hora pra postar uma coisa com qualidade do Boulder duro, Mas tem uns cara aí, velho, que tipo... Lado B que você nunca vai ouvir falar que o cara, mano, me deixa no chinelo aí, os malucos lá do interior de Minas, os cara do Rio de Janeiro brabo também, o meu irmão, cara, que é cara...

é totalmente low profile na escalada assim, é uma máquina de escala de calço, E tá cheio de nego foda aí que escala de calço, os caras são foda descobrir isso,

João Agapito (45:39)
Sim. E para os que querem ir descalço e começar, que conselho você daria?

Kaleu (45:44)
Cara, vá num boulder fácil que você já mandou mais de uma vez de sapatilha. Eu acho que esse é essencial. E tem que tomar muito cuidado também com a parte de cima da escalada, porque às vezes você não pensa que você subir cima do bloco de sapatilha é uma visão, você tem uma segurança. Se você sobe lá descalço, você tem que se garantir lá cima descalço. E às vezes pode ser uma coisa bem perigosa, tá ligado?

Pensa como é você vai descer do bloco, pensa se lá cima tem espinho, tá ligado? Porque às vezes você pode cair por setar descalço, de sapatilha, você ia...

Só dar os seus passinhos e descer, tá ligado? Tem o problema também de você cair fora do crash, velho. Isso uma coisa que tem que ficar esperto, tá ligado? Porque às vezes você cai de sapatilha fora do crash, mesmo que você cai numa pedra, às vezes se o torque não for suficiente, você não torce, você não quebra,

Mas se você as vezes cai descalço cima de uma raiz ou de uma parada assim pode até entrar no seu pé, tá ligado? Eu acho que isso é perigo, já aconteceu comigo uma vez que eu caí, tipo se eu tivesse sapatilha eu não ia nem sentir e mano arrancou pedaço do meu pé, velho, ficou tempão aberto assim, embaixo do meu dedão, assim. Mas eu já tive aberto na mão maior que esse do que eu tô te falando, já arranquei pedaço assim, tipo...

João Agapito (46:51)
Nossa Senhora!

Kaleu (46:58)
Então é meio que o pé é sua segunda mão ali, né? Se for ver.

João Agapito (47:03)
Porque

na mão ali já é dado, Todo mundo já sabe, ok. Mas aí você colocar mais dois

Caléo, Tem alguma mensagem final que você gostaria de deixar?

Kaleu (47:15)
Cara, Eu queria agradecer a galera toda aí que dá vibe pra eu escalar aí Tanto de todas as formas de estar junto no bloco, a gente cozinhar uma parada junto lá, ou a gente viajar junto ou tomar vinho junto depois, queria agradecer a galera que escuta, a galera que tá comigo aí no dia dia da escalada, esse ano a gente vai escalar

monte e mano massa demais

João Agapito (47:45)
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